Arquétipo

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O conceito de arquétipos de personalidade foi desenvolvido de maneira científica pelo psicanalista suíço C.G.Jung, na primeira metade deste século, e pode ser aplicado a interpretações analíticas sobre a mitologia iorubá, da qual derivam os cultos afro-brasileiros.

Permitindo-nos uma extrema simplificação de seus conceitos, segundo Jung, existe uma série de “tipos” muito semelhantes entre sí, que aparecem em culturas diferentes, em lendas desenvolvidas por povos que nunca mantiveram qualquer contato, e em histórias inventadas por autores de diferentes nacionalidades.

Esses “tipos” fariam parte do inconsciente coletivo, um elemento imaginário comum a todos os seres humanos. Sob esse ponto de vista, os Orixás dos cultos afro-brasileiros podem ser entendidos como arquétipos, figuras de características físicas e psicológicas que podem ser encontradas em diferentes seres humanos.

Assim:

 

Ogum é o lutador, o guerreiro que gosta de viagens e campanhas militares, que se alimenta com qualquer tipo de comida, dorme em qualquer lugar e é um pouco soldado, um pouco contestador.

Oxalá é o velho sábio, de pouca atividade física, mas com muita experiência de vida, que nunca age antes de refletir.

Xangô é o homem voluntarioso e enérgico, cortez, mas impaciente, severo consigo próprio e com alto senso de justiça.

Iansã é a mulher sensual, arrebatada, um pouco despótica, muito alegre, e que tem arroubos passionais fulminantes.

Já Obá é a mulher recatada, quieta, caseira, voltada para o lar e até um pouco amarga.

Por seu lado, Nhanhã é a mulher idosa, calma, paciente e benevolente, a avó por excelência que gosta de ter seus netos ao seu redor para educa-los.

E assim por diante.

 

Dessa forma, os Orixás seriam representações simbólicas de arquétipos universais, presentes em todas as culturas, e os filhos-de-santo, ao terem um Orixá-de-Cabeça e um Ajuntó (Orixá secundário), seriam combinações mais ou menos dosadas desses dois arquétipos, tanto nas suas características de temperamento, como nas suas qualidades físicas e pré-disposições metabólicas.

Nessa linha de raciocínio, esse vinculamento a dois Orixás teria o condão de influenciar tanto o comportamento da pessoa, como sua formação anatômica e suas disposições orgânicas.

Um filho de Iansã tenderia a descarregar no sangue muita adrenalina quando em estado de excitação, e manteria pequeno controle sobre seus atos nessas condições, enquanto, por outro lado, conseguiria facilmente transformar nutrientes em energia.

Já um filho de Oxum tenderia a não aproveitar todos os nutrientes, especialmente a glicose, o que realçaria o gosto por doces dos filhos dessa Orixá, assim como sua tendência para engordar, que seria acentuada pela grande retenção de líquido em seu organismo: os rins dos filhos da Orixá da água doce seriam tradicionalmente preguiçosos.

Na verdade, esse conceito estabelece uma ligação entre fenômenos químico-biológicos e tipos humanos específicos.

A síntese abstrata desses tipos seria, portanto, o panteão dos Orixás, numa concepção não divinatória.

 

Um erro muito comum encontrado em terreiros, tanto do Candomblé como da Umbanda, é ser entendido que essa identificação entre filho-de-santo e Orixá é um processo de linha direta, quando na verdade é uma ligação metafórica, num nível mais profundo da personalidade do que as tendências visíveis do comportamento.

Também é frequente ser erroneamente confundida a sexualidade mítica do Orixá, tendendo identificar como homossexualidade latente o fato de um homem ser filho de um Orixá- de-Cabeça feminino, ou uma mulher ser filha de um Orixá-de-Cabeça masculino.

 

Tal conceito é uma falácia, já contestada, inclusive, por estudos de campo exaustivamente realizados e documentados.

O que existe, sim, é uma tendência maior ou menor para a agressividade ou para a docilidade, nos casos referidos.

Afinal, um filho de Iansã será, pelo menos em tendência, mais agressivo que um filho de Oxalá, enquanto uma filha de Oxum será, ainda em tendência, mais dócil que uma filha de Ogum.

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