Cabula

Cabula é o nome pelo qual foi chamada, na Bahia, uma religião afro- brasileira surgida no final do século XIX, de caráter secreto e sincretizadora de elementos dos negros muçulmanos malês, grupo étnico banto, e a filosofia espírita.

É classificada como Candomblé de Caboclo, que incorpora o culto aos antepassados indígenas.

É também o nome de um bairro de Salvador que teve origem do Quilombo do Cabula e de um ritmo da Diáspora musical africana no Brasil, toque de percussão religioso de Angola, base rítmica do samba, música de origem sudanesa.

Na época da escravidão, houve um sincretismo afro-católico, principalmente nas áreas rurais da Bahia e do Rio de Janeiro, denominado Cabula.

Segundo pesquisas de historiadores, refere-se aos rituais negros mais antigos, envolvendo imagens de santos católicos sincretizados com os Orixás, herança da fase reprimida nas senzalas dos cultos africanos, onde os antigos sacerdotes mesclavam suas crenças e culturas com o catolicismo para conseguirem praticar e perpetuar sua fé.

Quando no final do século XIX ocorre a libertação dos escravos, a Cabula já era amplamente presente como atividade religiosa afro-brasileira.

No Rio de Janeiro de então e antes da origem oficial da Umbanda, eram comuns práticas afro-brasileiras similares ao que hoje ainda se conhece como Cabula e Almas e Angola.

O surgimento da Umbanda forneceu as normas de culto para uma prática ritual mais ordenada, orientada para o desenvolvimento da mediunidade e para a prática da caridade com Jesus em auxílio gratuito à população pobre e marginalizada do início do século passado.

No Rio de Janeiro, até ao início do século XX houve influência de duas nações: a Iorubá, que cultuava os orixás, e a Banta, cujo culto é conhecido sob o nome de Cabula.

A Cabula foi usada pelos negros como força revolucionária nos seus confrontos com os fazendeiros.

Era um ritual para abater os inimigos com feitiço, executando continuamente líderes escravagistas, especialmente aqueles que perseguiam os negros fugidos da senzala.

Era, em verdade, um instrumento de luta manejado por um guerreiro invisível e intangível, de demônios constituído.

O ódio era maior, principalmente, se esse feiticeiro fosse remanescente dos vindos da África.

O cabuleiro trabalhava com a parte do Satanás. Incorporava nele só gente brava. Vinham os pedidos para fazer mal aos desafetos. Recebido o pedido, o cabuleiro ia para o mato fazer o serviço, enquanto que o povo da mesa cantava e fazia a roda.

Ele voltava com o corpo envolvido em cipó e cheio de espinhos. Nesta hora, alguém tombava em algum lugar, vitimado pelo feitiço feito.

Manter o segredo sobre o ritual era como uma lei para não ser desobedecida nunca pelos seus adeptos.

Há inúmeras histórias de adeptos da cabula presos e torturados pela polícia, mas que jamais revelaram os segredos de seus rituais.

 

Os primeiros relatos acadêmicos derivam do registro feito, no Espírito Santo, pelo bispo católico D. João Batista Correia Néri em uma Carta Pastoral:

 

“ Nesta Diocese, nas proximidades da cidade de São Mateus, três freguesias se mostravam largamente minadas por uma seita misteriosa.

A investigação levada a efeito apurou, pelo depoimento de pessoas de todas as camadas sociais, e durante o espaço de quinze dias, que os participantes ou aqueles que da seita tenham se afastado, teriam de manter em segredo suas práticas sob pena de morte por envenenamento.

 

A despeito da ameaça, foram obtidas informações de que esses rituais secretos, praticados principalmente pelos negros e, mais difundidos após a Lei Áurea, contava na época com cerca de oito mil seguidores, entre negros e brancos.

O adepto dessa seita era denominado cafioto, termo que guarda semelhança com a Macumba carioca pois, esse era o termo pelo qual os adeptos desse culto se denominavam primitivamente.

Entre si eram chamados de cambas (do quimbundo Kamba) significando "camarada" onde os homens eram mucambos e as mulheres macambas; os iniciados recebiam a denominação de camanás (que também era sinônimo de irmão de culto), ao passo em que os estranhos e profanos eram os caialos, e o lugar das reuniões e cultos era chamado camucite.

Os rituais podiam ocorrer nas casas, mas mais comumente se davam nas florestas, no meio da noite: à hora aprazada, todos de camisa e calças brancas, descalços, uns a pé, outros a cavalo, com o embanda à retaguarda, dirigiam-se silenciosos ao templo, o camucite.

Um camaná ou um cambone ia à frente, conduzindo a mesa, isto é, a toalha, a vela e os outros objetos necessários ao trabalho.

Em determinado ponto do caminho tomavam uma vereda, só conhecida dos iniciados, para chegar ao camucite, um sítio sob uma frondosa árvore, no meio da mata.

O traje ritual era composto de calça e jaleco brancos, com pés descalços.

O traje era completado por um gorro (ou camate), ao estilo muçulmano e também por "largos cinturões com amuletos".

No rito propriamente, havia espelhos, pedras, cachimbos, infusões com raízes e outros apetrechos dispostos em sinais cabalísticos (como o Signo de Salomão), cruzes e velas (que guardam semelhança, ainda, com a Macumba).

As reuniões eram chamadas de "Mesa". O dirigente da Mesa, tal como o sacerdote das religiões dos bantos, se chamava embanda, e era auxiliado por um cambone.

A reunião dos camanás ou iniciados recebia o nome de engira e nestas a incorporação dos "tatás" (espíritos) ocorria.

Derivado do quimbundo para "pai", “tatá” indica a presença de um espírito familiar, seguindo a tradição dos bantos de realizarem um transe de possessão.

Existem duas mesas capitulares: a de Santa Bárbara e a de Santa Maria, subdividindo-se em muitas outras, com as mesmas denominações e que, embora em relatos não confirmados, também haveria uma terceira mesa dedicada a Cosme e Damião.

Esta esta seria mais misteriosa e mais central que as primeiras, e exerceria uma espécie de fiscalização suprema sobre as duas outras.

Seus iniciados usavam nas reuniões compridas túnicas pretas, que cobriam o corpo todo, desde a cabeça até os pés, à semelhança do saco dos antigos penitentes.

No início dessas reuniões era entoado um primeiro cântico (nimbu) após o qual se dava a possessão do embanda, que, então, se contorcia, virava os olhos, fazia trejeitos, batia no peito com as mãos fechadas e, compassadamente, emitia roncos profundos, e, afinal, dava um grito estridente e horroroso, para em seguida, ser servido pelo cambono que lhe oferecia uma infusão de raízes ou um copo de vinho.

Novo imbu era entoado dedicado ao "baculo do ar" como se lhes pedissem permissão para que entrasse no transe, caindo por terra (notando-se aqui uma incoerência no relato do bispo, uma vez que o transe já havia ocorrido após o primeiro canto)”.

A MESA E O SANTÉ

 

A Cabula é uma confraria de irmãos devotados à invocação das almas, de cada um dos kimbula, os espíritos congos que metem medo.

Também se dedica à comunicação com eles por meio do kambula, o desfalecimento, a síncope, o transe enfim.

Toda confraria de cabulistas constitui uma “mesa”.

O chefe de cada mesa é o embanda, a quem todos devem obedecer. Cada embanda é secundado por um cambone.

A cabula é dirigida por um espírito, Tata, que encarna nos camanás iniciados.

 

Sua finalidade é o contato direto com o Santé, o conjunto de espíritos da natureza que moram nas matas.

Todos os camanás devem trabalhar e se esforçar para receber esse Santé, preparando-se mediante abstinência e penitências.

Cada um dos espíritos que formam o Santé é um Tata.

Todo camaná tem e recebe seu Tata protetor, seja ele o Tata Guerreiro, o Tata Flor de Carunga, o Tata Rompe Serra, o Tata Rompe Ponte.

Na mata moram os Bacuros, anciãos, antepassados, que nunca encarnam. A reunião dos camanás forma a engira.

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