Catimbó

O Catimbó, também chamado Catimbó-Jurema, Catimbó de Terreiro, ou simplesmente de Jurema, é uma doutrina cultuada no Brasil muitos anos antes da chegada dos portugueses.

É um culto híbrido, nascido dos contatos ocorridos entre as espiritualidades indígena, européia e africana, contatos esses ocorridos em solo brasileiro, a partir do século XVI, época do advento da colonização portuguesa.

Praticada pelos índios das regiões brasileiras Norte e Nordeste, esta fé leva em consideração o grande conhecimento sobre as ervas, em especial a árvore que deu o nome a religião.

Da planta jurema, os indígenas utilizavam raízes, cascas e folhas, tudo para obter a cura de enfermidades.

“Catimbó", nas línguas Tupi e Guarani, significa respectivamente "fumaça de mato" e "vapor de erva".

A origem do termo catimbó é controversa, embora a maior parte dos pesquisadores afirme que deriva da língua tupi antiga, onde “caa” significa floresta e “timbó” refere-se a uma espécie de torpor que se assemelha à morte.

Desta forma, catimbó seria a floresta que conduz ao torpor, numa clara referência ao estado de transe ocasionado pela ingestão do vinho da jurema, em sua diversidade de ervas.

Outras teorias, porém, relacionam o vocábulo com a expressão “cat”, fogo, e “imbó”, árvore, neste mesmo idioma.

Assim, fogo na árvore ou árvore que queima relataria a sensação do queimor momentâneo que o consumo da jurema ocasiona

Atualmente, a expressão "Catimbó" é um dos nomes que identificam um conjunto específico de atividades culturais e mágico-religiosas, além de aspectos míticos, cosmológicos e teológicos originários dos nativos da Região Nordeste do Brasil, elementos que compõem o que alguns pesquisadores consideram ser uma das mais antigas religiões brasileiras: o também chamado "Catimbó-Jurema", "Jurema", "Jurema Sagrada" e "Culto aos Senhores Mestres", de conotações muito semelhantes às da Umbanda.

Era professada pelos indígenas.

Alguns dos primeiros cronistas e aventureiros europeus que passaram pelo Brasil, tomaram nota de diversos costumes e práticas indígenas, tanto entre os nativos do litoral (“Tupis”, quanto entre os do interior, genericamente chamados "Tapuias").

Entre os índios do Nordeste, observaram o uso da fumaça de tabaco para diversos fins, tomaram nota do "beber jurema", dos atualmente chamados "transes mediúnicos" (em que seres espirituais se manifestavam através de pajés), da evocação de espíritos, etc.

Fica claro que houve, anterior ao século XVI, entre os nativos do Nordeste brasileiro, um contato íntimo, transcendente e transpessoal, com a Natureza e suas energias, contato que resultou em uma série de concepções, "ciências", crenças e vivências que de certa forma foram herdadas pelo Catimbó-Jurema contemporâneo.

Não há um modelo, padrão ou forma exclusiva de se vivenciar o Catimbó.

Existem verdadeiras famílias, linhagens que preenchem a Tradição, todas com elementos comuns que as interconectam, mas com características próprias que as tornam singulares.

As famílias mais antigas, logicamente, são os grupos indígenas que, malgrado o violento processo colonizador que alcançou o Nordeste a partir do século XVI, resistiram às catequeses e mantiveram seus "cultos à Jurema", mesmo com influxos europeus e africanos mais ou menos presentes em seus rituais.

Desde o século XVI ocorreram fusões entre rituais e crenças indígenas e católicas.

As famílias do sertão praticavam seus cultos com a preparação de mesas com santos, crucifixos e velas, possivelmente em baixo de arvores frondosas que pertenciam aos terrenos (terreiros) da caatinga, assim como perante grandes rochas outrora consideradas sagradas.

 

Entre os séculos XVI e XVII surgiram as primeiras expressões do que pode ser considerado um proto-catimbó: as "Santidades", manifestações híbridas católico-indígenas de espiritualidade.

Os catimbós do sertão, por sua vez, são marcados por forte presença de elementos católicos.

 

Ao que parece, no território do Rio Grande do Norte, devido a inexistência de um porto para a chegada de escravos africanos durante o período colonial e à consequentemente pequena presença de negros - se comparado ao Recife e à Bahia - os catimbós mais antigos agregaram pajelança, catolicismo popular, bruxaria e feitiçaria ibérica, assim como alguns poucos traços de cabala judaica e Quimbanda.

Em outras regiões do Nordeste, em que a presença africana durante o período colonial foi muito relevante, vemos surgir famílias de juremeiros nas quais elementos africanos se destacam em suas práticas, formas de cultuar as entidades, imaginário, cosmologias e teologias.

Os conhecimentos indígenas se agregaram, e se fundiram com a "ciência" de origem africana, trazida pelos negros que foram escravizados.

Africanos de distintas nações se identificaram com o Catimbó por ser essa uma religião que cultua e dialoga com a Natureza, assim como Orixás e Voduns africanos também estão ligados à Natureza.

O Catimbó, ao contrário do que muitos acreditam, não é um adendo ou apêndice da Umbanda, do Candomblé, do Santo Daime ou de qualquer outra Tradição espiritualista, mágica ou religiosa.

Embora possa existir em paralelo e em íntima comunhão com outros cultos e religiões, o Catimbó é uma Tradição independente, que possui dogmas, preceitos, princípios e liturgias próprios.

O chefe principal era o “PAYÊ” (Pagé), que exercia as funções de sacerdote, curandeiro e médium: dava passes, curava as doenças, desfazia malefícios e era o porta- voz dos espíritos.

 

Seus conceitos regravam a vida do indivíduo e da comunidade.

No Brasil colonial os índios, mesmo convertidos ao catolicismo, não abandonaram seu culto.

 

Mesmo frequentando a missa, não deixavam de procurar seus Payés.

O culto, simples encontro dos Payés com seus seguidores, evoluiu, passando estes últimos a também apresentarem o fenômeno do transe mediúnico, induzido pelo ingerir de uma solução em que um dos componentes é a Jurema, palmeira tóxica do Nordeste.

O Catimbó serviu de ponte para a religiosidade indígena e influiu, de forma acentuada, nos fundamentos sobre os quais se assenta o culto da Umbanda.

O Catimbó, assim como a maior parte das religiões xamânicas, é considerado um culto de transe, no qual as entidades, conhecidas como Mestres, se utilizam do corpo do Catimbozeiro e, momentaneamente, tomam todos os domínios básicos do organismo.

Semelhante ao que ocorre na Umbanda, onde os espíritos se organizam em direita e esquerda conforme a natureza positiva ou negativa que possuam, mas trabalhando de acordo com a vontade do médium, os Mestres são relativamente neutros, podendo operar tanto boas quanto más ações.

Tais Mestres seriam figuras ilustres do Catimbó, que, quando vivos, teriam realizado diversos atos de caridade por intermédio do uso de ervas e propriedades xamânicas, de modo que na ocorrência de sua morte, teriam sido transportados a uma das cidades místicas do Juremá, localizadas nas imediações de um arbusto de Jurema plantado pelo Mestre anteriormente a seu falecimento.

Subordinados aos mestres, encontram-se as entidades conhecidas como Caboclos da Jurema.

 

Essa forma de espírito ancestral, representa os pajés e guerreiros indígenas falecidos, envidados ao Mundo Encantado de forma a auxiliarem os Mestres na realização de boas obras.

Os Caboclos são sempre invocados no início do culto, antes mesmo da incorporação de seus superiores.

Estes seres espirituais, seriam os responsáveis pela prescrição de ervas medicinais, banhos e rezas que afastariam o mau-olhado e o infortúnio.

O universo espiritual do Catimbó não segue o mesmo padrão estamental do catolicismo (de onde se origina as crenças de céu, inferno e purgatório) .

O Juremá, é a cidade onde habitariam os Mestres da Jurema e seus subordinados, e seria composto de uma profusão de aldeias, cidades e estados, que teriam uma organização hierárquica, envolvendo todas as entidades Catimbozeiras, tais como caboclos da jurema e encantados, sob o comando de um ou até três Mestres.

A Jurema (Mimosa hostilis), planta nativa do agreste e sertão nordestinos, é um arbusto Fabáceo, do qual se fabrica uma série de banhos, defumadores e bebidas que na Tradição recebem o mesmo nome da planta.

Essas bebidas, geralmente comungadas nos rituais, também conhecidas como Vinho da Jurema, são preparadas de maneira reservada pelos juremeiros que as consideram sagradas.

A ingestão da Jurema, em conjunto com os toques e as cantigas rituais do Catimbó, é capaz de provocar um estado de transe profundo, interpretado pelos Catimbozeiros como a incorporação dos Mestres da Jurema (quando uma entidade espiritual atua através dos veículos físicos e emocionais do adepto) assim como a visita aos Reinos, Cidades e Aldeias dos mundos espirituais da Jurema Sagrada (quando o adepto, expandindo sua consciência, alcança o estado de heterogenia e passa a comungar da Natureza Íntima, transcendental, do Mistério da Jurema).

Estas entidades espirituais, que habitariam o Mundo Encantado ou Juremá, teriam sido adeptos do Catimbó que, ao morrerem, se "encantaram", ou seja, foram transportados a esse estamento espiritual, de onde podem atender aos vivos pela realização de curas e aconselhamento, desde que para tal fossem requeridos através da incorporação ou evocação de suas Forças.

As entidades do Catimbó


No Catimbó, Exú é a entidade responsável por auxiliar os mestres em trabalhos de esquerda, ou seja, voltados fundamentalmente à prática de trabalhos.

Diferente do que ocorre na Umbanda onde os Exús possuem identidades distintas e independentes, no Catimbó há uma subordinação total destas entidades à autoridade do Mestre, numa espécie de servidão.

Outra diferença entre as concepções do Exú de Umbanda e o Catimbozeiro consiste na sua função: enquanto no Catimbó é utilizado na prática de magia negra, na Umbanda é o guardião que protege contra os espíritos "trevosos".

No Catimbó, a presença dos Exús resume-se à linha da Jurema de Terreiro, sendo sua existência rara em outras linhas.




Jurema de Terreiro


Jurema de Terreiro ou Catimbó de Terreiro é a designação comum à linha de Catimbó-Jurema que tem seus rituais processados em um terreiro, ao som dos tambores e atabaques.

Essa modalidade de culto apresenta uma massiva influência africana em sua composição, ao contrário das demais linhas do Catimbó-Jurema, que são, predominantemente, de origem indígena-católica





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