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  Jogos de Búzios

Todo sistema religioso codificado sempre conteve em seus contextos um método que possibilitasse o diálogo entre o homem e o mundo divino, e um sistema para que os fiéis tomassem ciência das disposições emanadas dessa divindade e recebessem a necessária orientação para harmonizar sua vida com os fluxos energéticos da vida cósmica.

Nas comunidades primitivas, as indagações limitavam-se à busca da causa e cura para as doenças, à identificação dos inimigos, ao estabelecimento dos momentos propícios para a caça, o plantio e a colheita, aos assuntos de guerra e à formação de novos sacerdotes.

Os esquemas, os objetivos e a formação desses sistemas de comunicação entre o homem e a divindade, sua leitura e interpretação, ampliam-se e sutilizam-se quando se avança no tempo até as grandes civilizações, na medida em que a necessidade de informações mais variadas e complexas foi se verificando.

Muito antes dos oito trigramas de Fo-Hsi, base do sistema oracular do I Ching chegarem aos adivinhos de feira e se popularizarem, eles se constituíam no método empregado pelos imperadores chineses para se manterem na condição de intermediários entre o povo e Deus, sendo consultados quando da tomada de decisões de Estado e naquelas relativas ao bem-estar da comunidade.

O mesmo se pode dizer do Oráculo de Delphos, do Livro do Destino dos Egípcios, encontrado pela equipe de cientistas que viajou com Napoleão para o Nilo, do Tarô Ário- Egípcio ou do Tarô Hebraico.

A Umbanda, o Candomblé e as demais religiões afro-brasileiras são depositários de um sistema muito antigo que é o Jogo de Búzios.

 

 

 

 

O Jogo de Búzios

 

 

O jogo de búzios (èrindinlógun) é uma das artes divinatórias das religiões afro-brasileiras, que consiste no arremesso de um conjunto de 16 búzios (conchas pequenas de praia), (cawris na África), sobre uma mesa previamente preparada, e na análise da configuração que os búzios adotam ao cair sobre ela.

O jogo de búzios é realizado pelo pai-de-santo, por sua iniciativa, como parte dos rituais do Candomblé, ou a pedido de uma pessoa, filho-de-santo ou não.

O babalorixá se concentra para contatar o astral, de forma consciente e não incorporado, e roga para ser orientado sobre as questões.

Antes de jogar os búzios, o adivinho reza e saúda todos Orixás, e durante os arremessos conversa com as divindades e faz perguntas.

Acredita-se que as divindades afetam o modo como os búzios se espalham pela mesa, dando assim as respostas às dúvidas que lhes são colocadas.

Como mensageiro dos Orixás, Exú é o “dono” de jogo, por concessão de Ifá, e é ele quem traduz, na mente do babalorixá, a resposta dos deuses.

O jogo é constituido por um tabuleiro octogonal ou retangular em que estão sulcados dezesseis signos, um para o princípio masculino universal, outro para o princípio feminino, sete para representar os Oxirás masculinos e outros sete para representar os Orixás femininos.

Esse tabuleiro é denominado “opanifá”, e sobre eles são lançados dezesseis búzios, que são pequenas conchas de um molusco do mar.

São dezesseis os búzios, porque a Ifá são creditados dezesseis olhos, e como, no Candomblé brasileiro, são dezesseis os Orixás cultuados, a cada um é atribuido um búzio.

Presentemente, a grande maioria dos babalorixás que se ocupam do jogo de búzios dispensa o “opanifá”.

Para o jogo, o babalorixá agita os búzios em suas mãos e os lança sobre uma mesa, no interior de um espaço formado por colares de contas correspondentes a diversos Orixás e dispostos de maneira a formar um círculo.

 

Esse espaço denomina-se “Colar de Ifá”, e simboliza o território de domínio desse Orixá.

A leitura se faz segundo dois princípios básicos gerais:

 

O primeiro é o das configurações - ou seja, a proximidade de um grupo de búzios e o apartamento de outro - que ocorrem quando as conchas caem dentro do círculo.

O segundo se baseia na posição em que cai a concha: aberta, com a cavidade voltada para cima, na posição denominada “CINCA”, ou fechada, com a cavidade voltada para baixo, na posição denominada “CINCAM”.

A interpretação é feita pelo babalorixá com base na ocorrência dessas posições, “cinca” e “cincam”, nas configurações apresentadas, e valendo-se de sua própria intuição, por intermédio do auxílio que recebe de Exú.

As posições “cinca” e “cincam” permitem as seguintes combinações, que correspondem às seguintes entidades:

 

 1 búzio aberto e 15 fechados: Exú

 2 búzios abertos e 14 fechados: Ibeiji

 3 búzios abertos e 13 fechados: Ogum

 4 búzios abertos e 12 fechados: Xangô

 5 búzios abertos e 11 fechados: Yemanjá ou Ogum

 6 búzios abertos e 10 fechados: Iansã

7 búzios abertos e 9 fechados: Exú

8 búzios abertos e 8 fechados: Oxalá

9 búzios abertos e 7 fechados: Yemanjá

10 búzios abertos e 6 fechados: Oxalá

11 búzios abertos e 5 fechados: Exú

12 búzios abertos e 4 fechados: Xangô

13 búzios abertos e 3 fechados: Obetegunda

14 búzios abertos e 2 fechados: Oxumarê

15 búzios abertos e 1 fechado: Obatalá

16 búzios abertos ou 16 fechados: jogada nula; deve ser refeita.

 O Opelé  

 

 

 

Outro processo é agrupar as conchas de quatro em quatro e lança-las sucessivamente.

 

É uma derivação de um jogo anterior, também chamado “Opelé”, igualmente subordinado a Ifá e jogado com um colar de nozes-de-dendê.

Nessa modalidade as respostas são dadas pelos “Odus”, denominação dada a cada possível combinação das posições dos búzios lançados:

 

Os 4 búzios caem abertos:              “Odu Alafia”, que significa SIM.

Apenas 3 búzios caem abertos:       “Odu Etawa”, que significa NÃO.

Dois abertos e dois fechados:          “Odu Ejala Keltu”, que significa NÃO.

Somente um búzio aberto:               “Odu Okanram”, que significa NÃO, e,

Todos os búzios caem fechados:      “Odu Oyaku”, que significa um NÃO, definitivo, desastroso.

 

 

Nessa modalidade é costume fazer-se a pergunta três vezes, para confirmação, e tais perguntas devem ser formuladas de maneira que possam ser respondidas simplesmente com SIM ou NÃO.

 

É evidente que as consultas ao jogo de búzios dependem sempre da interpretação, tanto do babalorixá como do consulente, o que pode dar margem a indefinições e até mesmo a conclusões errôneas.

A circunstância, contudo, é comum a toda e qualquer consulta adivinhatória, qualquer que seja o método empregado, dentro do contexto religioso ou não.

 Jogo de Búzios de Forma Invertida  

 

 

 

A consideração entre aberto e fechado do búzio também pode variar.

A grande maioria dos Babalorixás utiliza a abertura natural do búzio como sendo o lado “aberto”, mas várias mulheres no culto do Candomblé, principalmente na Nação de Keto, acostumaram a jogar como “aberto” o lado em que elas “abriam” o búzio, assim a fenda natural sendo o lado “fechado”, afirmando que o verdadeiro segredo em um búzio fica guardado em seu estado natural, e este é revelado apenas após sua abertura cerimonial, arrancando-se esta parte até então fechada.

Assim vários Babalorixás e Iyalorixás que aprenderam por este método fazem esta forma “invertida” de leitura, ao apresentarem suas conclusões.

Métodos de Jogo

Além dos búzios, pode-se utilizar outros objetos para consultar os Orixás: Obí, Orobô, Alobaça (cebola), atarê (pimenta da costa), ossos, vísceras e outros.

O jogo com quatro búzios é mais utilizado nos rituais para perguntas: normalmente as caídas correspondem às caídas do jogo de Obi.

A quantidade de búzios pode variar de acordo com a nação, o mais comum é composto de 16 ou 17 búzios, mas o jogo com 21 búzios também é muito comum.

Alguns métodos não se baseiam em caídas por Odú, como no Merindilogun. Usam outras configurações e combinações de búzios abertos e fechados, dividindo-os em quatro grupos de quatro búzios (que chamam de barracão) e analisam as quatro caídas e a disposição que elas se encontram. Nesse tipo de Oráculo não se fala em Odú.

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