As Quizilas de Santo

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As Quizilas de Santo são as proibições alimentares prescritas para os filhos-de-santo.

 

Tudo que o Orixá de Cabeça do filho-de-santo come, também faz bem a este. Tanto é verdade que há a norma do filho-de-santo, quando faz a oferenda de um alimento a seu Orixá, comer junto, para que aquele não se ofenda.

Na casa do orixá, a ingestão de comidas votivas é não apenas permitida, mas sim obrigatória.

 

É imprescindível participar do banquete sagrado.

A quizila refere-se ao consumo desse alimento específico fora do Ilê do Orixá: na vida cotidiana do filho de santo, é proibido desfrutar as mesmas comidas que alimentam o orixá. Se desobedecer, “faz mal”.

A razão dessa proibição reside na intenção de delimitar dois espaços, rigorosamente separados, que o momento ritual do oferecimento do alimento permite juntar.

É pela mediação do ritual, repetido inúmeras vezes ao longo do tempo, que se abre o espaço sagrado.

Comer alimentos sagrados é assegurar a sacralização do próprio corpo.

No Ilê orixá, o iniciado participa do banquete dos deuses, nutre-se do mesmo material de que é feita a sua cabeça, reforça a sua identidade como parente de determinada divindade.

Fora do espaço sagrado, lhe é proibido ingerir essas mesmas substâncias, porque seu corpo também é um espaço, que pelo cumprimento dos preceitos é constantemente mantido em condições de se tornar receptáculo da divindade.

Por isso tem de abster-se de ingerir comidas rejeitadas pelo seu orixá, e até mesmo aproximar-se delas.

Quebrar quizila, nessa perspectiva, é praticamente uma autodestruição.

 

 

 

 

As Quizilas dos Orixás

 

 

Todas as coisas emanam energia e vibrações. Isso se aplica tanto aos elementos da natureza, animais, vegetais etc, como às cores, as situações, e aos alimentos.

Quando essa vibração é incompatível com a vibração própria de um determinado Orixá, estabelece-se a quizila ou “èèwò”, que é a proibição de seu consumo ou uso, por esse Orixá, e isso se estende aos seus filhos-de-santo.

Essas energias e vibrações ora referidas não são negativas. Apenas são as energias contrárias á energia inerente a cada Orixá.

Algumas dessas quizilas decorrem de situações indesejáveis vivenciadas pelos Orixás – ver suas lendas específicas - em que estiveram presentes os alimentos ou os elementos a que se referem essas quizilas.

Essas quizilas se estendem aos filhos-de-santo desses Orixás.

 

Como exemplo dessas quizilas, tem-se:

A Oxalá - é proibido o dendê, e o vinho da palma A Yansã   - não é permitida a abóbora e o carneiro A Obá - é vedado comer carnes fibrosas.

A Xangô - é proibido o consumo de feijão branco.

A Exu - é proibido ingerir água e mel em excesso A Ogun – é vedado o consumo de quiabo.

A Oxossy - é proibido o mel de abelha.

Assim:

 

A proibição do consumo de vinho de palma a Oxalá decorre dele, numa determinada situação, ter ingerido a bebida, e, bêbado ter-se deixado dominar pelo sono, do que se aproveitou Odudua, seu irmão, para roubar-lhe o “Saco da Criação” que lhe fora dado por Ólódumaré.

 

A proibição de Yansã: diz a lenda que, certa feita Yansã quase foi morta por seus inimigos, por culpa de um carneiro que a traiu, tendo-se escondido numa plantação de abóboras por uma noite inteira. Logrando escapar da morte, Yansã, por gratidão à plantação que a abrigou, jurou jamais voltar a comer abóbora, assim como carne de carneiro, face à traição de que foi vítima.

 

No caso de Obá: reza a lenda que Obá, certa feita, foi induzida por Oxum a cortar uma de suas próprias orelhas, para, cozinhando-a no feijão branco, servi-la a Xangô, objetivando conquistar a simpatia daquele Orixá. Óbviamente a reação foi o oposto: Xangô ficou indignado, censurou Obá e passou a evita-la. Decorre daí a proibição a Obá, do consumo de carnes fibrosas que tem constituição semelhante à da orelha perdida.

 

A quizila de Xangô decorre da mesma ocorrência descrita na lenda de Obá, que originou o horror de Xangô pelo prato de feijão-branco onde estava a orelha de Obá, que lhe foi servido por aquela Yabá. E assim por diante.

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