Tambor de Mina

O Tambor de Mina (São Jorge da Mina, Gana - África) é uma religião Afro-Brasileira muito praticada nos estados do Maranhão, Piauí, Pará e, na Amazônia, e cuja característica marcante é o transe.

O Maranhão foi um dos grandes destino da mão de obra africana, sobretudo durante o último século do tráfico de escravos para o Brasil (1750-1850), principalmente para a capital, a Baixada Maranhense e o Vale do Itapecuru, regiões onde existiam grandes plantações de algodão e cana-de-açúcar.

No nome Tambor de Mina, a palavra tambor é devido a importância do instrumento nos rituais de culto. A palavra mina refere-se ao negro-mina da região de São Jorge da Mina.

Negro-Mina era a denominação dada aos escravos procedentes da costa situada a leste do Castelo de São Jorge da Mina, na atual República do Gana, trazidos da região das atuais repúblicas do Togo, Benim e Nigéria, conhecidos principalmente como negros mina- jejes e mina-nagôs.

Como as demais religiões de origem africana no Brasil (Candomblé, Xangô, Xambá, Batuque, Toré, Jarê e outras), o Tambor de Mina se caracteriza por ser religião iniciática e de transe ou possessão.

No Tambor de Mina mais tradicional a iniciação é demorada, não havendo cerimônias públicas de saída, sendo realizada com grande discrição no recinto dos terreiros e poucas pessoas recebem os graus mais elevados ou a iniciação completa.

A discrição no transe e no comportamento em geral é uma características marcante do Tambor de Mina, considerado por muitos como uma Maçonaria de negros, pois apresenta características de sociedades secretas.

Nos recintos mais sagrados do culto (peji em nagô, ou côme em jeje), penetram apenas os iniciados mais graduados.

O transe no Tambor de Mina é muito discreto e às vezes percebível apenas por pequenos detalhes da vestimenta.

Em muitas casas, no início do transe, a entidade dá muitas voltas ao redor de si mesmo, no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, talvez para firmar o transe, numa dança de bonito efeito visual.

Normalmente a pessoa quando entra em transe recebe um símbolo, como uma toalha branca amarrada na cintura ou um lenço, denominado “pana”, enrolado na mão ou no braço.

No Tambor de Mina, grande parte dos participantes do culto são do sexo feminino e por isso, alguns falam num matriarcado nesta religião.

Os homens desempenham principalmente a função de tocadores de tambores, isto é, abatás, daí a definição abatazeiros, e também se encarregam de certas atividades do culto, como matança de animais de 4 patas e do transporte de certas obrigações para o local em que devem ser depositados.

Algumas casas são dirigidas por homens e possuem maior presença de homens, que podem ser encontrados inclusive entrando em transe e sendo possuído por uma entidade.

Existem dois modelos principais de Tambor de Mina no Maranhão: o jeje e o nagô: o primeiro parece ser o mais antigo e se estabeleceu em torno da Casa Grande das Minas Jeje, mais conhecida como Casa das Minas (Querebentã de Tói Zomadônu), o terreiro mais antigo, que deve ter sido fundado em São Luís na década de 1840.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                      Fachada da Casa das Minas              Átrio interno da Casa das Minas, com chão de terra batida

 

 

 

O outro, que lhe é quase contemporâneo e que também se perpetua até hoje se estabeleceu em torno da Casa de Nagô.

A Casa das Minas e a Casa de Nagô localizam-se no mesmo bairro (São Pantaleão) a uma quadra de distância.

A Casa das Minas é única, não possui casas que lhe sejam filiadas, daí porque nenhuma outra siga completamente seu estilo.

Nesta casa os cânticos são em língua jeje (Ewê-Fon) e só se recebem divindades denominadas de voduns, mas apesar dela não ter casas filiadas, o modelo do culto do Tambor de Mina é grandemente influenciado pela Casa das Minas.

A Casa de Nagô cultua voduns, orixás e encantados (gentis ou caboclos, que são espíritos de reis, nobres, índios, turcos etc.).

O modelo de culto desta casa deu origem a diversos terreiros que se espalharam pela capital e interior do estado.

Nos terreiros de Tambor de Mina é comum a realização de festas e folguedos da cultura popular maranhense que às vezes são solicitadas por entidades espirituais que gostam delas, como a do Festa do Divino Espírito Santo, Queimação de Palhinhas, o Bumba-meu-boi, o Tambor de Crioula e outras.

É comum também outros grupos que organizam tais atividades irem dançar nos Terreiros de Mina para homenagear o dono da casa, as vodúnsis e para pedir proteção às entidades espirituais para suas brincadeiras.

No Tambor de Mina do Maranhão pouco se fala em Oxum, Oiá e Obá, conhecidas nos terreiros influenciados pelo Candomblé.

Os orixás e voduns se agrupam em famílias ou panteões.

Na Mina há festas especiais para voduns, gentis e caboclos, sendo que de acordo com o desenvolver do culto mudam-se os toques e os cânticos também, dependendo da família ou linha de entidades que se queira homenagear.

Os voduns são as entidades superiores no culto e tudo começa e termina com eles, que, entretanto, convivem e podem ser celebrados juntamente com gentis ou caboclos (encantados), porém as festas em homenagens aos encantados geralmente ocorrem em separado.

Na Mina, diz-se que uma entidade é encantada quando teve vida terrena e desapareceu sem ter sido constatada a sua morte.

A riqueza do culto e sua peculiaridade pode ser observada na liturgia, nos instrumentos, nos trajes, no comportamento das entidades e nos cânticos em língua jeje ou nagô, isto é, num jeje (fon) intraduzível, deturpado naturalmente no decorrer de séculos.

Além dos cânticos tradicionais entoados aos voduns, cantam-se várias 'doutrinas' em português e ladainhas em latim: isso se deve ao fato de que o Tambor-de-Mina, com exceção da Casa das Minas, ser um mixto de elementos nagôs (yorubás), jeje (ewe-fon), fanti-ashanti, ketu, agrono ou cambinda (angola-congo), indígenas e europeus (catolicismo romano).

Por essa riqueza cultural e pelo próprio sincretismo presente no culto, estes elementos convivem de forma harmônica, sendo quase impossível separar do Tambor-de-Mina, o catolicismo popular, o folclore local e a Encantaria, já que, nesta acepção em especial, a maioria das casas de culto dedica-se também à Cura ou Pajelança (em ritos festivos chamados de Brinquedos de Cura, ou ainda Tambor de Curador, em Cururupu).

É dito que os encantados que participam das duas "navegam nas duas águas", sendo a Mina classificada como "linha de água salgada" e a Cura/Pajelança como "linha de água doce".

Entretanto, o que de fato vem descaracterizando o Tambor de Mina, é a influência direta ou indireta de denominações não originárias do Maranhão, como a Umbanda e o Candomblé exercida sobre muitos líderes de terreiros maranhenses, notória no usos de alguns vocábulos, práticas, rituais e paramentos próprios do Candomblé ou da Umbanda, porém totalmente alheios à Mina e que leva a que o culto seja, de maneira errônea e apressada, considerado como uma nação do Candomblé ou uma variedade da Umbanda.

Diversos objetos da cultura afro-maranhense, sobretudo do Tambor de Mina, como acessórios de indumentária e instrumentos musicais utilizados nos rituais religiosos da Casa das Minas, Casa de Nagô e outros terreiros do Maranhão, podem ser encontrados na Cafuá das Mercês (Museu do Negro), em São Luís.

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